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Projeto de barcas na Barra enfrenta impasse e pode exigir R$ 300 milhões a mais

Estudo do Consórcio Lagunar Marítimo aponta pontes baixas, dragagem cara, desapropriações e obstáculos não previstos no edital.

O plano da Prefeitura do Rio para criar linhas de barcas nas lagoas da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, enfrenta um impasse antes mesmo de começar a operar. O projeto, pensado como alternativa de transporte para moradores da região, esbarrou em entraves técnicos, ambientais e financeiros que podem exigir ao menos R$ 300 milhões extras. As informações são d´O Globo.

A concessão foi vencida pelo Consórcio Lagunar Marítimo, que assinou contrato para explorar o serviço por 25 anos. Pelo acordo, a empresa deveria investir R$ 101,6 milhões na compra de embarcações, construção de píeres, estações e estruturas de atracação.

Mas um estudo apresentado pela concessionária à prefeitura aponta obstáculos que, segundo a empresa, não foram considerados no processo de licitação. O relatório cita pontes baixas, necessidade de desapropriações, realocação de ciclovia e dragagem de canais como fatores que podem inviabilizar o projeto no formato atual.

Pontes baixas e dragagem encarecem o projeto

Entre os principais problemas estão pontes na Avenida Ayrton Senna que precisariam ser elevadas, já que a altura atual não permitiria a passagem das embarcações. O estudo também aponta a necessidade de realocar uma ciclovia, remover três casas em Rio das Pedras, outras 20 residências na Gardênia Azul e desapropriar um posto de gasolina no Jardim Oceânico.

A dragagem aparece como o item mais caro. Para criar canais navegáveis e evitar que os barcos encalhem em bancos de areia, seria necessário retirar cerca de 5,6 milhões de m³ de sedimentos. O custo estimado passa de R$ 220 milhões.

O relatório também cita a necessidade de monitoramento permanente da qualidade da água, hoje afetada por despejo irregular de esgoto e presença de bactérias tóxicas.

A Prefeitura do Rio, por meio da Companhia Carioca de Parcerias e Concessões, a CCPAR, informou que o projeto “encontra-se na fase de estudos iniciais, conforme previsto em contrato”.

Sistema foi pensado para até 90 mil passageiros por dia

O projeto original prevê transportar entre 85 mil e 90 mil pessoas por dia, conectando shoppings, condomínios, terminais de ônibus e a estação Jardim Oceânico, da Linha 4 do metrô.

A promessa era reduzir o tempo de deslocamento em uma região marcada por congestionamentos. No horário de pico, uma viagem entre Cidade de Deus e Jardim Oceânico, que pode levar mais de uma hora de carro, poderia ser feita em cerca de 20 minutos por barco.

Pelo contrato, a concessionária deve implantar, até 2028, cinco terminais obrigatórios, seis estações e oito linhas. O edital também prevê oito serviços opcionais, incluindo balsas para atender à Ilha da Gigóia e linhas expressas, como uma conexão entre o Condomínio Península e o metrô no Jardim Oceânico.

No fim do ano passado, o consórcio chegou a estudar uma operação experimental na Lagoa de Marapendi, com ligações entre o Condomínio Alfa Barra, shoppings e a Linha 4. A ideia, porém, não avançou. Um dos obstáculos é que o terreno previsto para o terminal de integração com o metrô está ocupado por um posto de gasolina.

Concessionária fala em passivos não previstos

O presidente do Consórcio Lagunar Marítimo, Nelson Florentino da Silva Filho, afirmou que a empresa ainda quer implantar o serviço, mas considera que há passivos que não estavam claros nos estudos iniciais.

“A necessidade dessas intervenções não era prevista nos estudos de viabilidade. Essa demora da prefeitura para avaliar o que consideramos passivos ambientais já seria motivo de reivindicarmos uma rescisão do contrato. Mas fechamos um compromisso com a população, acreditamos no projeto e queremos implantar o serviço”, disse Nelson Florentino da Silva Filho.

No documento, a concessionária detalha os custos com base na matriz de risco prevista no contrato. À prefeitura caberia, por exemplo, bancar cerca de R$ 45 milhões para elevar duas pontes, incluindo a Ponte Plácido de Castro, no sentido Alvorada, além de alterar o traçado de uma ciclovia na Avenida Ayrton Senna.

Também seria necessário negociar com a concessionária Iguá o remanejamento de uma adutora próxima à ponte. A empresa não se manifestou.

Moradores cobram alternativa ao trânsito

Para lideranças comunitárias da Barra, o transporte aquaviário poderia ajudar a reduzir a pressão sobre as vias da região. Mas o histórico de promessas não cumpridas gera desconfiança.

“Sinceramente, estou pessimista, embora ache que seria bom não apenas para moradores, mas para estimular o turismo”, afirmou Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra.

“Essa é uma promessa antiga que até agora não vingou. Enquanto isso, o trânsito na região vem piorando cada vez mais, e é claro que seria ideal ter opções para se deslocar. Na altura do Freeway, na Avenida das Américas, por exemplo, a lâmina d’água não passa de 20 centímetros”, acrescentou Delair Dumbrosck.

A prefeitura previu que o sistema será integrado ao Jaé, com regras do bilhete único. A tarifa estimada seria de R$ 5, o mesmo valor dos ônibus municipais.

Mesmo assim, especialistas apontam que a operação só terá chance de funcionar se for competitiva no preço e na integração com outros modais. Para o engenheiro de transportes Marcus Quintella, professor da FGV, o serviço tende a ser complementar.

“Ligação por barcas é um serviço complementar, que exigirá integrações, por exemplo, com o metrô, que custa R$ 7,90. Se um grupo de pessoas se juntar, sai mais barato pegar um carro de aplicativo, mesmo ficando no trânsito. É preciso ter uma tarifa mais em conta, porque geralmente o usuário vai optar pela alternativa que pesa menos no bolso”, avaliou Marcus Quintella.

O projeto aquaviário da Barra enfrenta percalços desde 2023, quando foi anunciado. A primeira licitação, com prazo de operação de 12 anos, não atraiu interessados. Em 2024, o edital foi republicado com concessão de 25 anos. Apenas o Consórcio Lagunar Marítimo apresentou proposta. A prefeitura declarou a empresa vencedora em julho daquele ano, mas o contrato só foi assinado em outubro de 2025.

Créditos: Diário do Rio

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