Análise é do empresário João Mello, CEO da rede Vilarejo de Hotéis, após participação no Share Summit, em São Paulo.
O turismo residencial no Brasil atravessa um momento de transformação, marcado por ajustes de modelo, reposicionamento de produtos e maior foco na experiência do consumidor. A avaliação é do empresário João Mello, CEO da rede Vilarejo de Hotéis, após a participação no Share Summit, realizado nesta segunda-feira (13), no The Westin São Paulo. O empresário esteve no evento com a COO da rede Vilarejo, Fátima Rodrigues.
Ao longo de 11 horas de programação, o evento reuniu especialistas e lideranças dos setores de turismo, hospitalidade e desenvolvimento imobiliário, que compartilharam dados de mercado, projeções e análises aprofundadas sobre os modelos de Time Sharing, multipropriedade e Branded Residences. Esses formatos vêm redefinindo a lógica do turismo residencial no país.
Segundo João Mello, o Time Sharing no Brasil ainda representa um “oceano azul”, sobretudo quando comparado a mercados mais maduros, como Estados Unidos e México. “Há espaço significativo para crescimento, inovação e qualificação do modelo”, identifica.
Em contrapartida, os dados mostram que a multipropriedade começa a demonstrar sinais de saturação precoce. Para o executivo, esse cenário está fortemente relacionado a um histórico de estratégias de comercialização agressivas, que acabaram comprometendo a percepção de valor do produto junto ao consumidor final.
A multipropriedade carrega, ainda, o ônus de um modelo comercial que, ao longo das últimas décadas, resultou em altos índices de inadimplência e em uma percepção recorrente de desequilíbrio entre custo e benefício. Na prática, muitos clientes passaram a questionar o fato de adquirirem o direito de uso de duas ou três semanas por ano, enquanto assumiam o pagamento de 12 parcelas anuais.
Esse desgaste tem impacto direto na atratividade do produto e abre espaço para a retomada do interesse por formatos mais flexíveis, como o Time Sharing e os clubes de benefícios — modelos que apresentam menor fricção financeira e maior alinhamento às necessidades contemporâneas do consumidor.
A evolução do Time Sharing
Apesar de continuar majoritariamente associado a empreendimentos de grande escala — condição considerada essencial para a viabilidade do modelo —, o Time Sharing passa por uma evolução estrutural importante.
O formato tradicional, baseado exclusivamente em inventário fixo de diárias ou em sistemas de pontos, começa a dar lugar a soluções mais sofisticadas. Entre os diferenciais estão descontos relevantes, experiências personalizadas, curadoria de serviços e atenção especial ao cuidado com o hóspede, refletindo uma mudança de foco: da ocupação para a experiência.
Outro ponto de destaque no Share Summit foram os Branded Residences, apontados como um verdadeiro ponto de inflexão no mercado. Para João Mello, esse formato pode ser compreendido como uma espécie de “Time Share Triple A”, fortemente ancorado em marca, experiência e diferenciação.
Durante o evento, Victor Arakaki, partner e managing director da JHSF, apresentou um dado que João Mello classificou como emblemático: empreendimentos imobiliários associados a marcas fortes e bem posicionadas podem alcançar até 30% de valorização adicional. Não por acaso, o tema branding foi recorrente ao longo de todo o encontro, reforçando a importância da construção de marca na estratégia desses ativos.
Esse contexto ajuda a explicar o avanço dos Residence Clubs no Brasil, como o Resid Club & Hotels, com o projeto Nas Rocas, em Búzios, e o In Casa, do Grupo Aviva. As iniciativas combinam hospitalidade, lifestyle e senso de pertencimento como proposta central de valor.
Um mercado em movimento
Em síntese, o turismo residencial brasileiro vive um período de intensa movimentação, com diversos players disputando posições de destaque e apresentando cases com Valores Gerais de Vendas (VGV) superiores a R$ 1 bilhão. Ainda assim, são poucos os grupos que efetivamente reúnem funding, estrutura operacional e visão estratégica compatíveis com os desafios desse mercado.
No caso do Grupo Vilarejo, o principal “dever de casa”, segundo João Mello, está em aprofundar o entendimento sobre o perfil e as expectativas reais dos hóspedes. “Nosso foco é desenvolver programas e soluções que façam sentido para toda a jornada de consumo do cliente”, destaca.
Como parte desse movimento, o grupo iniciou recentemente uma pesquisa direta com seus clientes para a construção de um novo clube de benefícios. Em menos de uma semana, a iniciativa já contabilizou mais de 3 mil respostas — um resultado que, para o executivo, representa tanto motivo de celebração quanto de grande expectativa sobre os próximos passos.
